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Duas penínsulas, dois pais

Espanha e Itália têm a mesma cultura familiar mediterrânea. Uma deu ao pai dezenove semanas. A outra, dez dias — e votou contra mudar. O que aconteceu em cada uma.

São países parecidos em quase tudo que interessa aqui: católicos, familiares, com avós que cuidam de netos e uma tradição de que a casa é território da mãe. Se cultura fosse destino, os pais espanhóis e italianos seriam iguais.

Não são mais. E a diferença tem data.

Espanha, 2021

A Espanha igualou a licença do pai à da mãe: dezesseis semanas, pagas integralmente, intransferíveis, com seis obrigatórias logo após o nascimento. Em 2025 subiu para dezenove. É a maior parcela obrigatória da Europa.

O resultado foi rápido. A adesão dos pais disparou. Mais da metade dos pais de bebês nascidos em 2023 dividiu a licença em vários períodos, esticando o tempo em que um dos dois está em casa. E estudos acadêmicos registraram uma coisa que quase ninguém previa: a diferença salarial entre homens e mulheres encolheu. Quando o pai também some do trabalho por meses, a "penalidade da maternidade" deixa de ser só da mãe.

Itália, 2026

A Itália dá ao pai dez dias. À mãe, cinco meses. Em fevereiro de 2026, o parlamento votou uma proposta para igualar as licenças, nos moldes da Espanha. Foi rejeitada por 137 votos a 117, com o argumento do custo.

A nadadora olímpica Federica Pellegrini, mãe de dois, escreveu depois da votação: se uma mulher quer carreira na Itália, é melhor não virar mãe. O emprego feminino no país é de 53%, um dos mais baixos da Europa, e muitas mulheres deixam o trabalho depois do primeiro filho.

A camada que vale conhecer: o que a Itália mostra sem querer

Um instituto de pesquisa italiano mediu a adesão à licença de dez dias: 64% no país. Mas nas empresas que oferecem licença estendida por conta própria, 71% — e mais alta entre os pais mais jovens. E um estudo europeu encontrou que, na Itália, morar no sul, ter menos escolaridade e concordar com a divisão tradicional de papéis reduzem drasticamente a chance de o pai usar a licença que tem.

Ou seja: onde há mais licença, mais pais usam. Onde a cultura é mais tradicional, menos usam — mesmo com direito. É a mesma lição do Japão e da Suécia, por um terceiro caminho: a lei muda o que é possível; a cultura muda o que é feito; e a lei, com o tempo, muda a cultura.

Enquanto isso, um pai de Milão que busca os filhos na escola todo dia e prepara o jantar virou influenciador com centenas de milhares de seguidores. A rotina dele é comum. O que é raro é ele fazer isso e mostrar.

Por que isso interessa a um pai brasileiro

O Brasil acabou de aprovar a ampliação de cinco para vinte dias, até 2029. É um passo na direção italiana, não na espanhola. E o que a Itália ensina é que vinte dias sem obrigatoriedade e sem cultura viram vinte dias que a maioria não tira — a menos que a empresa, o chefe, ou o próprio pai decidam que é esperado.

O que fazer com isso

  1. Se você vai ser pai: descubra hoje quantos dias você tem — cinco, vinte pela Empresa Cidadã, ou os da nova lei em 2027 — e diga ao RH, antes do nascimento, que vai tirar todos.
  2. Se você é chefe: a pesquisa italiana é clara — onde a empresa oferece e o chefe espera, a adesão sobe. Diga em voz alta que tirar é esperado, antes que alguém pergunte.
  3. Se você já é pai de criança maior: a lição espanhola vale em casa. Um espaço de cuidado que é seu, intransferível e obrigatório — o banho, a manhã de sábado — muda a divisão inteira.
O que isso rende

Você garante os dias que são seus antes que alguém decida por você. Ele ganha um pai que esteve lá no começo. E a mãe dele ganha um parceiro, não um visitante.

Onde conferir

Reuters, abril de 2026, sobre a votação italiana e os pais influenciadores. Barcelona School of Economics, working papers 1455 e 1487, sobre a reforma espanhola. Marques e colegas, European Journal of Public Health, 2024, sobre determinantes do uso da licença na Itália. Safeguard Global, guia de licenças por país, 2026.

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