Quem escreve
A paternidade tem sido a experiência mais transformadora da minha vida. É por isso que escrevo.

Luiz Cesar Kimura. Pai de duas meninas, de 12 e 8 anos. Divorciado, guarda compartilhada, metade dos dias com elas.
Nos meus dias eu levo e busco na escola, faço o almoço e o jantar, acompanho as tarefas, cuido da casa, brinco, ponho para dormir — e trabalho nos intervalos entre essas coisas.
Procurador do Estado de Goiás há 26 anos, e advogado. Continuo os dois. O que eu larguei foi a ideia de que o meu valor como pai estava no que eu depositava na conta.
De onde isso vem
Para a carreira eu estudei anos, planejei, me preparei. Para ser pai, eu simplesmente fui.
Eu queria as duas coisas com a mesma intensidade, mas só havia me preparado para uma.
Achei que amor bastasse. Não basta — e por muito tempo eu fui um pai pressionado, sem nem conseguir nomear a sensação. Provia, cumpria, fazia o certo, mas sem leveza e muitas vezes só de corpo presente.
Numa tarde de quarta-feira, na minha primeira semana como procurador-geral do Estado, eu esqueci de buscar minha filha mais velha na escola. Ela ficou lá o dia inteiro. Não aconteceu nada. Levei anos para entender que era exatamente esse o problema — e é por causa daquela tarde que este lugar existe.
O que mudou
Reorganizei a vida. Recusei oportunidades, reduzi o ritmo. O casamento acabou mesmo assim, veio o divórcio, minhas filhas se mudaram de cidade com a mãe, e eu me mudei junto.
Com o que eu observei e aprendi, a paternidade virou a coisa mais prazerosa da minha vida. Acabou a pressão, a sensação de estar em falta. Vieram momentos que ficaram, aprendizado que eu não esperava, e passagens em que criar minhas filhas me fez reinterpretar a minha própria infância.
Isso não estava no plano. Mas aconteceu, e é o que eu quero dividir com outros pais.
O que eu ainda não resolvi
Eu não consigo ajudar minha filha de doze anos com a matemática dela. O combinado da louça aqui em casa ainda não está sendo cumprido. Eu ainda erro o momento de começar conversa e encontro a porta fechada.
Como pai, eu ainda estou aprendendo. Vou estar sempre.
Sobre minhas filhas
Elas aparecem no que eu escrevo. Não com os nomes delas, e não em tudo.
Adotei uma regra que também recomendo: o pai pode ser o personagem falho; a filha não pode ser o objeto avaliado. Elas não escolheram estar aqui, e vão ter vinte, trinta, quarenta anos — e o que for publicado hoje continua publicado. O que você vai ler bastante é sobre os meus erros. Esses são meus.
Como eu trabalho explica o que tem pesquisa por trás e o que é só experiência.