O pai bonito do Japão
Doze meses de licença no papel, catorze por cento de adesão. O governo inventou uma palavra — e as mulheres explicaram o que estava errado.
No papel, o Japão oferece ao pai até doze meses de licença remunerada. Na prática, em 2021, catorze por cento dos pais tiraram — contra oitenta e cinco por cento das mães — e a maioria ficou menos de uma semana.
O problema nunca foi a lei. Foi o chefe. Os pais dizem que gostariam de tirar e não tiram porque nenhum colega tira, e ninguém quer ser o primeiro.
A palavra que o Estado inventou
Em 2010 o governo lançou o Ikumen Project: ikuji, criar filhos, mais ikemen, homem bonito. Pai que cuida virou pai atraente, por decisão de marketing de Estado. Nasceram revistas, campanhas, prêmios corporativos. A adesão subiu — devagar.
A crítica que veio depois
As mulheres casadas passaram a se ressentir de os homens serem celebrados por fazer o que delas sempre foi exigido em silêncio. Pesquisadoras apontaram que o ikumen típico fica com a parte divertida — o parque, a brincadeira, a foto — enquanto a fralda, a consulta e a agenda continuam com a mãe.
O Japão descobriu: transformar o cuidado em imagem atraente funciona para começar. Mas se a imagem for só a parte visível, ela reproduz a divisão que queria corrigir.
O que isso diz para um pai brasileiro
Se você é o pai do sábado no parque e a mãe é a da terça na pediatra, você é um ikumen — e as japonesas já explicaram o que há de errado nisso. A presença que muda uma casa não é a que rende foto. É a invisível.
O que fazer com isso
- Faça a conta desta semana: quantas das suas horas com seu filho foram na parte divertida, e quantas na parte invisível — consulta, agenda, escola, roupa, comida?
- Se a proporção for a do ikumen, escolha uma tarefa invisível e pegue para você. A série A parte invisível, aqui no site, começa por três.
- Não anuncie. O ikumen japonês foi criticado justamente por ser celebrado. Faça, e deixe que se perceba.
Você troca a foto pelo que fica. Ele percebe a diferença, mesmo sem saber explicar. E a casa inteira ganha um pai que está dentro, não um que aparece.
Onde conferir
Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão, pesquisas anuais de adesão. Ishii-Kuntz, Fatherhood in Japan. UNICEF, Are the world's richest countries family friendly?, 2019.