Pesquisas e projetos
O que se descobriu e o que se está fazendo sobre paternidade — no Brasil e no mundo. Resumido em palavras nossas, com a fonte. Sem comentário.
A Lei 15.371, sancionada em 31 de março, aumenta a licença gradualmente a partir de 2027 até chegar a 20 dias em 2029, e cria o salário-paternidade, pago pelo INSS. Inclui MEIs, trabalhadores domésticos e avulsos. O projeto tramitava desde 2007; em 2023 o STF havia declarado a omissão do Congresso e dado prazo de 18 meses. Em 1988, o deputado que criou a licença de cinco dias na Constituinte foi ridicularizado pelos colegas ao defendê-la.
Fonte: Agência Brasil e IBDFAMLer a versão completa
A Constituição de 1988 criou a licença-paternidade com um prazo "provisório" de cinco dias, a ser regulamentado por lei. O provisório durou trinta e oito anos.
O projeto que virou a Lei 15.371 foi apresentado em 2007 pela senadora Patrícia Saboya. Tramitou dezenove anos. Em dezembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal declarou que o Congresso estava em omissão e deu dezoito meses para regulamentar. O Senado aprovou em março de 2026; a lei foi sancionada no dia 31.
O que muda, e quando
Até 31 de dezembro de 2026, nada: continuam os cinco dias. A partir de 1º de janeiro de 2027 a licença passa a crescer gradualmente, até chegar a vinte dias em 2029 — condicionados ao cumprimento de metas fiscais, o que é uma ressalva real.
Nasce o salário-paternidade, benefício previdenciário nos moldes do salário-maternidade: o empregador paga durante a licença e compensa depois com o INSS. Isso amplia o alcance para MEIs, trabalhadores domésticos, avulsos e segurados especiais — que hoje não têm licença nenhuma.
A licença pode ser dividida em dois períodos, a pedido do trabalhador. Filho com deficiência: prazo acrescido de um terço. E há estabilidade provisória no emprego a partir da comunicação da gravidez.
O que não muda
Não há cota reservada ao pai, como nos países nórdicos — o mecanismo que, na Suécia, dobrou a adesão. Vinte dias é o que os programas de empresa-cidadã já ofereciam desde 2016, e que poucos usavam. A lei amplia o direito; a cultura que impede o uso continua a mesma.
O que fazer com isso
- Se você vai ser pai em 2027 ou depois, saiba o número exato de dias a que tem direito naquele ano — a tabela é progressiva e o RH pode não saber.
- Se a sua empresa aderiu ao programa Empresa Cidadã, você já tem vinte dias hoje. Pergunte. A maioria dos pais não sabe.
- Planeje a licença como estrutura, não como folga: quais tarefas do cuidado passam a ser suas nesses dias, e quais continuam depois.
- Se você é chefe: o maior obstáculo ao uso da licença é o medo do chefe. Diga em voz alta, antes que alguém pergunte, que tirar é esperado.
Onde conferir
Lei 15.371, de 31 de março de 2026. Agência Brasil; IBDFAM, com análise de Maria Berenice Dias; Sorj e Fraga, Revista Brasileira de Estudos de População, 2022, sobre as desigualdades de acesso às licenças no Brasil.
O Bandebereho — "modelo" em kinyarwanda — reuniu 1.199 casais em quatro distritos de Ruanda, com pais locais treinados como facilitadores. Num teste randomizado, a violência contra a parceira caiu 44%, e os homens passaram a dedicar quase uma hora a mais por dia às tarefas de casa. Seis anos depois, os efeitos continuavam: menos castigo físico nas crianças, menos depressão nos dois, melhor divisão do trabalho doméstico. O programa foi adaptado do Programa P, brasileiro.
Fonte: Doyle e colegas, PLOS One, 2018; The Lancet eClinicalMedicine, 2023Ler a versão completa
Ruanda, 2013. Uma organização local de homens, a RWAMREC, adapta o Programa P — o programa brasileiro de paternidade do Promundo — para o contexto do país, com aprovação do Ministério da Saúde. Dão o nome de Bandebereho, que em kinyarwanda significa modelo, no sentido de exemplo a seguir.
O desenho é simples e é o que o distingue: pais locais, treinados, conduzem os grupos. Não são profissionais de fora. São homens da comunidade que passaram pelo programa e voltam para conduzir o próximo grupo. Quinze sessões para os homens, oito delas com as parceiras, em grupos de até doze casais.
O teste
Entre 2015 e 2016, 1.199 casais de quatro distritos foram sorteados: 575 para o programa, 624 para o grupo de controle. É o padrão-ouro de evidência, e é raro em paternidade.
Vinte e um meses depois, os homens do programa tinham 44% menos violência contra a parceira. Dedicavam quase uma hora a mais por dia às tarefas domésticas. Acompanhavam mais o pré-natal. Bebiam menos. As mulheres decidiam mais em casa.
Seis anos depois
Em 2021, pesquisadores voltaram às mesmas famílias. Os efeitos continuavam: menos castigo físico nas crianças, metade dos sintomas depressivos nos dois, menos álcool, mais envolvimento do pai, e uma divisão do trabalho de casa que se manteve. Foi publicado no Lancet em 2023.
O que a pesquisa identificou como mecanismo: melhora na qualidade da relação do casal, atitudes mais equitativas, e redução do álcool. Não foi informação — os homens não aprenderam nada que não soubessem. Foi ter conversado sobre isso, em grupo, com outros pais, conduzidos por um pai.
Por que é o exemplo africano certo
Porque não é sobre "a África": é sobre uma organização ruandesa, num contexto ruandês, com um método que veio do Brasil e voltou com a evidência mais robusta que existe. E porque desmonta a ideia de que paternidade envolvida é coisa de país rico.
O que fazer com isso
- O mecanismo é replicável em qualquer escala: conversar sobre isso com outros pais, conduzido por um pai. Se você tem três amigos com filhos, isso já é um grupo.
- O que mudou em Ruanda foi a hora a mais de tarefa doméstica por dia. Não foi o parque. Meça a sua: quantos minutos por dia você dedica ao trabalho invisível da casa?
- As sessões em casal foram parte essencial. Se a mãe do seu filho topar, a série O casal aqui no site tem um exercício de uma noite para começar.
Onde conferir
Doyle, Levtov, Barker e colegas, PLOS One, abril de 2018. Doyle e colegas, The Lancet eClinicalMedicine, setembro de 2023. RWAMREC, rwamrec.org. Equimundo, equimundo.org/bandebereho.
O American Institute for Boys and Men, dirigido por Richard Reeves, autor de Of Boys and Men, anunciou que 2026 terá "muito mais sobre paternidade", além de publicações sobre por que meninos precisam brincar, ritos de passagem, uso do tempo e vida familiar. O instituto se tornou a principal referência da conversa pública sobre a crise dos meninos nos Estados Unidos.
Fonte: AIBM Mandar para alguémDados de uso do tempo mostram cerca de 125 minutos diários de cuidado primário entre pais de crianças pequenas — comparável ao que o antropólogo Barry Hewlett mediu entre os Aka, considerados os pais mais envolvidos já documentados. Hewlett, entrevistado sobre o dado, disse que a paternidade importa hoje mais do que entre os Aka, porque não existe mais a rede comunitária que os cercava.
Fonte: FortuneLer a versão completa
Os Aka vivem na floresta da República Centro-Africana e são caçadores-coletores. Nos anos 1980, o antropólogo Barry Hewlett foi morar com eles e mediu, pela primeira vez com rigor, o que os pais fazem com os filhos pequenos.
Os pais Aka ficam ao alcance do braço dos bebês a maior parte do dia, carregam-nos por até um quarto do tempo, e são, depois da mãe, quem mais os segura e acalma. Hewlett documentou homens oferecendo o próprio peito para acalmar um bebê enquanto a mãe não está. Publicou em 1991, em Intimate Fathers.
A segunda camada
Os Aka não fazem isso sozinhos. Vivem numa rede densa em que todo mundo cuida de todo mundo. E há uma razão prática: entre eles, homens e mulheres caçam juntos, com redes — quando a mãe está na rede, alguém segura o bebê, e frequentemente é o pai porque ele está ali.
Em 2026, dados americanos de uso do tempo mostraram cerca de 125 minutos diários de cuidado primário entre pais de crianças pequenas — comparável, em minutos, ao que Hewlett mediu. Entrevistado, ele disse que a paternidade importa mais hoje do que entre os Aka, porque não existe mais a rede. O pai de apartamento faz sozinho o que uma aldeia fazia.
E acrescentou uma coisa sobre "tempo de qualidade": depois de viver com os Aka, passou a duvidar da ideia. O que ele viu funcionar foi tempo em quantidade, com o filho perto.
O que fazer com isso
- Descubra quem é a sua aldeia. Nomeie três pessoas que cuidam ou poderiam cuidar do seu filho além de vocês dois. Se não tem três, esse é o próximo trabalho.
- Peça ajuda a uma delas nesta semana, para uma coisa pequena. Rede se constrói usando.
- Escolha um momento fixo de contato físico que seja seu, todo dia. Os Aka têm de sobra; você precisa construir.
Onde conferir
Hewlett, Intimate Fathers: The Nature and Context of Aka Pygmy Paternal Infant Care, University of Michigan Press, 1991. Entrevista à Fortune, junho de 2026.
Estudo do Promundo com 270 pais negros encontrou que 65% já sofreram discriminação relacionada ao cuidado com os filhos. Os pesquisadores apontam que o estereótipo do pai negro ausente ignora que o homem negro brasileiro só pôde exercer paternidade depois de 1888, e que a ausência atual é imposta pela informalidade do trabalho. Amostra pequena, por redes sociais — é o primeiro levantamento do tipo no país.
Fonte: Promundo BrasilLer a versão completa
Em 2018, um dia antes do Dia dos Pais, o professor Humberto Baltar descobriu que ia ser pai. E percebeu que não tinha repertório: eu não tive um pai provedor de afeto. Tive um pai provedor de coisas — roupa, proteção, brinquedo. Mas não tinha diálogo sobre as minhas fraquezas, inseguranças, frustrações.
Perguntou nas redes sociais quem conhecia pais pretos presentes. A resposta virou um grupo de WhatsApp. O grupo virou o Coletivo Pais Pretos Presentes, fundado com a esposa, Thainá Baltar. Hoje tem audiência estimada em noventa mil pessoas, moção na Câmara do Rio, parceria com a Unicef e o Ministério Público, e Humberto dá a disciplina "Paternidades Pretas" na pós-graduação do MPRJ.
O relatório
Em 2023, o coletivo contribuiu com o Promundo no primeiro levantamento sobre paternidade negra no Brasil. Foram 270 pais, recrutados por redes sociais — amostra pequena e não representativa, e as duas coisas precisam ser ditas. Mas os achados são consistentes com o resto do que se sabe.
Sessenta e cinco por cento relataram discriminação relacionada ao cuidado dos filhos. Os pesquisadores nomeiam o mecanismo: o machismo tira do homem o lugar do cuidado; o racismo tira do homem negro duas vezes, porque atribui a ele a violência como natureza. Um pai preto no parque com o filho é lido de outro jeito.
E o relatório reposiciona o estereótipo do pai negro ausente: o homem negro brasileiro só pôde exercer paternidade depois de 1888. Antes disso, a família era desfeita por venda. A ausência que se atribui a cultura é herança de destruição — e continua imposta pela informalidade do trabalho, que não dá licença nem para acompanhar o parto.
O que o coletivo faz
Rodas de conversa, palestras sobre letramento racial e paternidades positivas, e-books sobre princípios ancestrais africanos aplicados à criação de filhos, e trabalho com agentes de saúde no Pré-natal do Parceiro. Em 2019, o impacto atraiu também as mulheres pretas — companheiras, irmãs, mães — e nasceram os grupos Mães Pretas Presentes e Pais e Mães dos Pretinhos.
A frase de Humberto sobre o pai dele — provedor de coisas, não de afeto — é a mesma tese do Manual de um Pai, chegada por outro caminho.
O que fazer com isso
- Se você é pai preto: o coletivo existe, é gratuito para participar, e começou exatamente com a pergunta que você talvez esteja fazendo. paispretospresentes.com.br.
- Se você é pai branco de filho preto ou adotivo: o coletivo recebe também, e é o lugar para aprender o que você não viveu.
- Se você é pai de qualquer cor: a frase de Humberto é um teste. Provedor de coisas ou provedor de afeto? Nesta semana, uma coisa que não seja coisa.
Onde conferir
Promundo Brasil, relatório sobre paternidades negras, 2023. Observatório de Favelas, entrevista com Humberto Baltar, 2023. AlmaPreta, agosto de 2025. Revista Raça, março de 2025.
Em 1990, 3% dos homens diziam não ter amigos próximos. Em 2021, 15%. A pesquisa aponta que as amizades masculinas dependem de atividade compartilhada e desmoronam com mudança de emprego, envelhecimento, filhos e divórcio.
Fonte: Survey Center on American Life Mandar para alguémPesquisa anual do Ministério da Saúde japonês mostra adesão de 13,97% entre pais, contra 85% entre mães — e a maioria ficou menos de uma semana. O país tem uma das licenças-paternidade mais longas do mundo no papel. A meta do governo era 50% até 2025.
Fonte: Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão Mandar para alguémDesde julho de 2021, o pai francês tem direito a 28 dias, dos quais sete são obrigatórios. Antes eram catorze.
Fonte: Governo da França Mandar para alguémRevisão holandesa reuniu 2.257 correlações em 115 amostras, com 24.854 famílias divorciadas. O que mais se associa ao ajustamento da criança é o conflito entre os pais depois da separação — e o caminho é a própria parentalidade, contaminada pela hostilidade.
Fonte: van Dijk e colegas, Clinical Psychology Review Mandar para alguémO relatório State of the World’s Fathers reuniu estudos de comunidades onde programas incentivaram homens a participar mais das tarefas de casa. Nessas áreas: mais decisão das mulheres, menos violência doméstica, menos discriminação contra meninas e menos evasão escolar feminina.
Fonte: Promundo Mandar para alguémO Programa H, do Promundo, criado no Rio de Janeiro em 2002 para trabalhar normas de masculinidade com homens jovens, foi adotado pelos Ministérios da Saúde do Brasil, México, Chile e Croácia, e chegou a 25 mil escolas na Índia. A pesquisa que o fundamentou encontrou que o que muda a atitude de um homem não é palestra: é ter pares que apoiam a igualdade, experiências de sucesso associadas a ela, e modelos masculinos positivos.
Fonte: Promundo BrasilLer a versão completa
Em 2002, o Instituto Promundo, no Rio de Janeiro, junto com o Instituto Papai, do Recife, e organizações do México, lançou o Programa H — H de homens. Um conjunto de oficinas em grupo para homens jovens refletirem sobre o que significa ser homem, feito a partir de pesquisas com jovens brasileiros que tinham atitudes mais equitativas do que a média.
A pergunta da pesquisa era: o que fez esses jovens diferentes? A resposta guiou o programa e vale para qualquer pai: ter pares que apoiavam a igualdade, ter vivido experiências de sucesso associadas a ela, e ter tido modelos masculinos positivos. Nenhum deles mudou por palestra.
Para onde foi
O Programa H foi adotado pelos Ministérios da Saúde do Brasil, México, Chile e Croácia, adaptado em mais de vinte e cinco países, e chegou a vinte e cinco mil escolas na Índia. Ganhou prêmio da Organização Pan-Americana da Saúde em 2010.
Dele nasceu o Programa P — P de pai —, feito com o Ministério da Saúde brasileiro, para envolver homens desde a gravidez. E do Programa P nasceu, em Ruanda, o Bandebereho, o programa de paternidade com a evidência mais forte já produzida no mundo.
O que o Promundo faz hoje
Continua no Rio, com oficinas e formações em masculinidades, equidade e primeira infância. Publica o relatório State of the World's Fathers, referência global. Em 2023, produziu com o coletivo Pais Pretos Presentes o primeiro relatório sobre paternidade negra no Brasil. E, em 2025, levou debates sobre paternidade a agentes comunitários de saúde no Piauí, no Maranhão e no Rio, fortalecendo o Pré-natal do Parceiro.
O que fazer com isso
- Os três fatores que a pesquisa encontrou valem para você: quem, entre os seus pares, apoia o que você quer fazer como pai? Se a resposta é ninguém, esse é o primeiro trabalho.
- Se você tem filho adolescente, o Programa H é gratuito e está publicado. Escolas e projetos podem aplicar. Vale saber que existe.
- O Pré-natal do Parceiro existe no SUS desde 2016. Se você vai ser pai, você tem direito a consultas e exames próprios durante a gestação. Pergunte na unidade de saúde.
Onde conferir
Promundo Brasil, promundo.org.br. Rede de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil. Pulerwitz e Barker, escala GEM, 2007.